Os números do cinema en Portugal

O vindeiro xoves comeza a oitava edición do Indielisboa, que coma sempre nos permitirá calibrar cal é o estado de saúde do cinema en Portugal. Cada ano véndense no país veciño dezaseis millóns de entradas, o mesmo que na provincia de Barcelona e bastante menos que na de Madrid. España multiplica por seis esa cifra de espectadores (e Francia por doce), unha desproporción que non se xustifica pola diferenza poboacional. Os cidadáns portugueses van en promedio 1,5 veces ao cinema cada ano, por debaixo da media española (2,2) mais lixeiramente por riba da galega (1,3).

Un terzo dos espectadores recólleos por si só o distrito de Lisboa; este distrito e o do Porto -cunha afluencia ás salas moi próxima á de toda Galicia xunta- concentran un 60% da recadación con algo máis do 40% das pantallas. Un panorama moi pouco homoxéneo que se ve paliado en parte pola vizosa rede de cineclubes, cuxa programación atrae a cincuenta mil afeccionados cada tempada.

O prezo medio das entradas non chega aos cinco euros (en Galicia está en 6,65 €). Subiu un 19% dende 2004, case a metade que en España no mesmo período; quizais por iso ao sur do Miño non se experimentou unha caída da asistencia tan espectacular como a que se rexistrou aquí. Os éxitos máis grandes arrastran ás salas a 700 ou 800 mil espectadores (o fenómeno Avatar sobrepasou con comodidade o millón). A cota de mercado da produción local é moi baixa, arredor dun 2 ou 3%; dos filmes nacionais recentes o mellor colocado é O crime do Padre Amaro, con case 400 mil. Unha obra de prestixio mundial coma Aquele querido mês de agosto debe conformarse con vinte mil, en calquera caso un resultado máis que bo.

Martin Pawley. Publicado en Xornal de Galicia o venres 29 de abril

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Construir a verdade

Artigo publicado no libro SEM COMPANHIA, editado por João Trabulo / Periferia Filmes para a exposición homónima no Centro Português de Fotografia, no Porto. A exposición permanecerá aberta do 15 de xaneiro ao 27 de febreiro. O filme pode verse na Serralves o vindeiro domingo 16 de xaneiro.

Construir a verdade

É já recorrente afirmar que a zona híbrida entre ficção e realidade é uma das mais férteis do cinema contemporâneo, no entanto as propostas mais estimulantes são aquelas que transcendem qualquer etiqueta, as que dinamitam as fronteiras artificiais entre os dois mundos. Às obras que não exigem definição não podemos perguntar “o que são”, em que categoria devemos encaixá-las. Encontram-se no território da criação pura, sem limites.

A essa estirpe de filmes pertence SEM COMPANHIA. João Trabulo entrou na prisão de Paços de Ferreira sabendo o que não devia filmar. Não fazia sentido um retrato distanciado e ascético do dia-a-dia atrás das grades, nem recriar um registo miserabilista do quotidiano de uma prisão; e seria obsceno pretender dar uma visão romântica de pessoas condenadas e sem liberdade. Não podemos ser o outro, mas podemos compreendê-lo e para isso não basta observá-lo, é necessário conviver. Aprendemos isso de Pedro Costa: é preciso metermo-nos no quarto com Vanda. Temos que estar dentro, com os presos, para assim entendermos as suas rotinas, os seus hábitos, descobrindo assim a imagem que querem dar de si mesmos. Só através desse conhecimento do real é que podemos construir a verdade, a partir de um acto genuíno de criação e não de revelação, pois a arte, como disse Paul Klee, não reproduz o visível, faz o visível.

É nessa criação conjunta que participam os dois personagens do filme, Marcos Ernesto e Paulo Gaspar, cujo magnetismo ultrapassa o ecrã. Assistimos às suas conversas nas celas, às caminhadas nos pátios, os seus momentos de trabalho, de jogo, de espera. Não há ilusão nem lamento, não há alegria nem amargura. A prisão, um dos grandes fracassos da nossa sociedade, é um parêntesis na vida e nele as palavras perdem sentido; tudo o que interessa está lá fora, noutro tempo, noutro lugar. Fora está o mar, destino de um dos protagonistas, a quem veremos trabalhar num cargueiro. O plano final podia ter sido retirado de um filme de Peter Hutton, mas a sensação é bem diferente: no oceano sobra o espaço, mas o nível de clausura parece o mesmo. A prisão é um parênteses que deixa marcas para sempre.

Com a ajuda da extraordinária fotografia de Miguel Carvalho, que consegue resultados impressionantes, João Trabulo constrói um filme extremamente rigoroso. A escolha dos cenários é acertada e a composição de cada plano revela com exactidão os contrastes de luz e sombra. Deixa que os actores falem, que as cenas captem ar e força. Como resultado consegue cinema de enorme qualidade, limpo e honesto: o procedimento pode ser ou não mentira, mas os sentimentos esses são absolutamente verdadeiros.

Martin Pawley

para saber máis: artigo de Robert Koehler en Variety

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